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Este é o CD comemorativo dos 20 anos do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora. O Centro Cultural Pró Música de Juiz de Fora celebra, orgulhosamente, a bem sucedida trajetória do seu evento maior, que completa um ciclo: duas décadas de projeto artístico e pedagógico ininterrupto, numa linha crescente de realizações que acabaram por transformar definitivamente o panorama da música erudita no Brasil. Esse ciclo compreende, entre tantas facetas que só um evento diversificado como o Festival poderia conter, a implementação no Brasil do ensino continuado e abrangente da música antiga interpretadas com instrumentos de época, e a divulgação e registro da música histórica brasileira. Se porventura hoje em dia o cenário brasileiro em relação a esses temas está muito melhor do que já esteve no passado, isso se deve, em muito, à decisiva contribuição do Festival do Centro Cultural Pró Música. Á essa constatação soma-se a materialização da ação cultural do Festival em 17 Cds, 1 DVD, 8 livros e vários prêmios nacionais.
O jubileu do Festival neste ano também é comemoração para a Orquestra Barroca, pois aqui apresentamos o décimo CD do grupo musical, emblema do evento. Completa-se, então, um ciclo de gravações inéditas no país, espelhando o que há de mais recente feito no velho mundo, com obras de peso do repertório europeu e da música colonial brasileira, vistas sob a ótica da interpretação histórica. Esse conjunto de realizações, felizmente registradas, torna-se, hoje, sem a menor sombra de dúvida, o mais bem sucedido projeto na área da música antiga já realizado no Brasil.
O Festival aproveita-se da sua inclusão oficial no Ano da França no Brasil 2009 para mostrar a Orquestra Barroca fazendo uma homenagem à cultura francesa, e, em particular, o repertório do barroco francês, liderado por um de seus maiores representantes: Jean- Philippe Rameau. Grande teórico, importantíssimo compositor de óperas e de obras para cravo, Rameau foi injustamente eclipsado com o passar do tempo, assim como todos os compositores de sua geração e das anteriores, devido a um interessante fenômeno: a falta de contextualização histórica e artística.
A música barroca francesa é, esteticamente falando, resultado de um ambiente cultural que floresceu durante o Absolutismo, com um léxico e um sotaque muito individual e próprio, e que só teve sua plena realização dentro dos limites e estritos códigos da cultura aristocrática francesa. A emblematização do gosto da realeza na linguagem musical fizeram dessa música o melhor retrato do refinamento, da elaboração, da elegância e artificialidade do comportamento francês absolutista; mas isso também foi o motivo de sua ruína e sepultamento futuros, uma vez que esse tipo de sociedade rígida passou a ser substituído por um novo ideal de mundo, a partir da Revolução Francesa.
Portanto, trazer de novo a música dessa época de volta à vida implica entender os códigos e os gostos dessa época, e aplicá-los à execução musical. Assim, a notação musical de grandes compositores como Rebel e Rameau não bastam como guia; é necessário readquirir o “gosto” dessa música, ou, em um termo mais abrangente e moderno, “contextualizar” essa música. A experiência da Orquestra Barroca com a interpretação histórica da música do passado se revela aqui através de dois tipos de contextualização: uma concreta, “material”, e outra abstrata, artística.
Primeiramente, levamos em conta a instrumentação típica dessa época, que a coloca quase que totalmente nos domínios das orquestras barrocas: a sonoridade sui generis dos instrumentos tocados em colla parte (uníssonos de violinos e oboés, ou violinos e flautas, ou cellos e fagotes), bem como a intencional desproporção de forças sonoras concentradas nos sopranos e baixos da orquestra, apenas “recheadas” por partes destinadas às violas ( sempre em número consideravelmente menor), distanciam, e muito, esse tipo de som orquestral do nosso modelo atual de “orquestra”. O ideal do colla parte barroco produzidos pela fusão dos timbres de vários naipes de sopranos ( aqui nessa gravação utilizamos a hiperbólica combinação de 11 violinos, 4 oboés e 4 flautas!) só é obtido de uma forma satisfatória porque os instrumentos de época têm essa característica: fundem-se, tornam-se unânimes, porém nunca perdem a desigualdade essencial ao discurso musical eloquente, sempre com intenções retóricas.
Posteriormente à instrumentação, vem então a compreensão e o resgate de tudo que é essencial à interpretação dessa música, mas que não está explícito na partitura: o caráter de cada dança com sua inflexão e gestos próprios, sua métrica específica, o fraseado baseado na declamação e no ethos oratório, a representação pictórica das figuras musicais, o uso do inegalité, o tempero local de cada ornamento.
Neste CD a Orquestra Barroca registra de J.F. Rebel o ballet intitulado La Fantaisie, que junto com outras de suas obras como Les Plaisirs Champêtres e Les Elements, são raros exemplos de obras compostas especialmente para a dança, peças coreográficas independentes de qualquer ópera, onde normalmente todas a manifestações artísticas eram reunidas. Como uma espécie de pout-pourri, Rebel encadeia diversas danças, como chaconne, loure e tambourin, em um único só movimento, preludiado por um grave em estilo italiano. Neste CD essa peça é precedida por uma introdução com airs et batteries de tambours compostas por André Philidor. Trata-se de um belo exemplo da música que era executada ao ar livre em eventos e cerimônias de pompa em Versailles; em tais ocasiões, essa música era executada pela bande de hautbois, outra marca registrada dos reinados dos Luíses, onde os instrumentos de palheta tiveram não só um grande prestígio, mas ali se desenvolveram consideralvelmente, através do empenho das famílias de fabricantes e músicos Hotteterre e Philidor.
A suite extraída da ópera Les Indes Galantes de J. P. Rameau é uma coletânea de danças selecionadas para esse CD. Chamada de ballet heroique pelo próprio compositor, Les Indes Galantes é mais um exemplo da individualidade que o franceses do período barroco deram ao gênero “ópera”: aqui a dança tem um papel importantíssimo dentro do conceito de espetáculo, muitas vezes se tornando o centro das atenções, ou, como em diversas ocasiões, fazendo a ação dramática se tornar nada mais que um tableau, para que a dança se tornasse o grande protagonista. Aqui encontram-se peças coreográficas de caráter exótico, bem ao tema da ópera e muito em voga na época: os selvagens, os Incas do Peru, os escravos africanos e guerreiros poloneses. Temas extravagantes, mas sempre, sempre, enquadrados pelo “bom gosto” aristocrático da França absolutista. Pois, assim como os jardins dos palácios, a Natureza, sem o polimento e o “aperfeiçoamento” considerados então necessários, não passava de banalidade e primitivismo.
Completando o CD, duas peças inéditas do nosso passado colonial brasileiro: duas antífonas de Jerônimo Sousa, encontradas no arquivo da cidade de Santa Luzia em Minas Gerais. A simplicidade da escrita musical, a instrumentação camerística escolhida para a presente versão dessa peças (quarteto vocal, quarteto instrumental e órgao) mostra a diferença entre dois mundos ainda num mesmo século: a mundanidade da côrte absolutista francesa e o pietismo da música religiosa de tradição portuguesa, símbolo da nossa música colonial.
O décimo CD da Orquestra Barroca do Festival não poderia ser diferente de todos os outros: obras e estilos contrastantes, até mesmo antagônicos, mas reunidos pela mesma paixão dos músicos que as interpretam, levando o nome do Festival às mais longínquas fronteiras.
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